O arcebispo de Washington, dom Robert cardeal McElroy, usou sua primeira aparição pública não-litúrgica desde sua posse para fazer uma reflexão "espiritual e moral" sobre a "situação americana neste momento" numa conferência sobre imigração ontem (24).

Citando a carta do papa Francisco à Conferência dos Bispos Católicos dos EUA (USCCB, na sigla em inglês) e a encíclica Fratelli tutti, de 2020, o cardeal McElroy centrou suas observações na parábola do bom samaritano.

"Temos que lembrar que o chamado de Jesus é constante, estar sempre atentos às necessidades e ao sofrimento que estão ao nosso redor, percebê-lo e depois agir", disse o arcebispo, comparando a situação dos migrantes à vítima dos ladrões na parábola do bom samaritano.

Seguindo a reflexão do papa sobre a mesma parábola, dom McElroy disse que "cada um de nós vitimiza os outros conscientemente de várias maneiras diferentes".

"Quando colocamos nossos próprios interesses e bem-estar à frente dos outros e causamos danos, devemos estar em contato com esse lado de nós mesmos com a escuridão, que é o ladrão dentro de cada um de nós", disse o arcebispo. "Esse é um dos grandes apelos da conversão cristã, erradicar essa escuridão, enfrentá-la onde ela está e lutar sempre contra ela".

O evento de ontem, com o tema "Doutrina Social Católica e Trabalho com Migrantes e Refugiados em Tempos de Incerteza", foi organizado em Washington, D.C., pelo Serviço Jesuíta aos Refugiados (JRS USA, na sigla em inglês) dos EUA e pelo Centro de Estudos de Migração de Nova York.

Como a várias organizações de caridade católicas em todo o país, o governo Trump suspendeu a ajuda aos programas de refugiados do JRS USA em todo o mundo, iniciando uma "paralisação total do trabalho" para os programas de ajuda externa no início do mês passado. Desde então, o Departamento de Estado dos EUA restaurou o financiamento para dois dos programas do JRS USA, mas procurou rescindir os contratos de financiamento para outros.

Em seus comentários, dom McElroy criticou duramente a suspensão da ajuda externa do governo como sendo "inescrupulosa por qualquer prisma do pensamento católico".

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"Se olharmos para a figura do ladrão neste momento, acho que devemos dizer a nós mesmos de forma bastante clara e categórica, a suspensão do dinheiro da Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional para Ajuda Humanitária é um roubo moral dos homens, mulheres e crianças mais pobres e desesperados em nosso mundo hoje", disse o arcebispo de Washington.

O cardeal também os esforços de deportação em massa do governo, que, segundo ele, vitimizam migrantes como na parábola e "geram medo ... o que desenraiza a compreensão de todos sobre os laços que tantos homens, mulheres, crianças e famílias sem documentos formaram em nossa sociedade nas décadas em que estiveram aqui”.

"As pessoas sem documento são as vítimas deste momento e dessas políticas", disse dom McElroy.

O arcebispo pediu também solidariedade entre fiéis e migrantes, dizendo que "devemos não só defender, mas também agir em apoio a eles de todas as maneiras possíveis".

O cardeal deu um exemplo de mães que conheceu há vários anos na diocese de San Diego, no Estado americano da Califórnia, que ele disse que enviariam mensagens de texto umas às outras se vissem um caminhão do Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA (ICE, na sigla em inglês) em frente à escola de seus filhos.

Embora o arcebispo reconheça a segurança nas fronteiras e a exclusão de criminosos como "legítimas", ele disse que "devemos sempre entender também que os muitos temas que estão apoiando o esforço para minar os direitos e a dignidade das pessoas sem documento vêm das partes mais negras de nossa história".

Em última análise, dom McElroy concluiu que existem dois caminhos a seguir para os EUA na imigração. O primeiro caminho, apoiado pela doutrina social da Igreja, "é mudar nossas leis para que existam fronteiras seguras e dignidade para o tratamento de todos nessas fronteiras e uma política generosa de asilo e refugiados".

"O outro caminho é uma cruzada, que vem das partes mais sombrias de nossa psique, alma e história americanas", disse também o cardeal.

"Essas são as duas opções que temos. Nós, como nação, teremos que fazer uma escolha. O caminho da cruzada e da deportação em massa não pode ser seguido em consciência pelos que se dizem discípulos de Jesus Cristo".